DICIONÁRIO DO GURGUÉIA É LANÇADO COM GRANDE PRESENÇA DE PÚBLICO
foi lançado o sétimo livro do escritor Jesualdo Cavalcanti, no auditório do Tribunal de Contas do Estado. O evento teve expressiva presença de convidados, autoridades, políticos, amigos e admiradores de Jesualdo, principalmente aqueles ligados ao movimento de criação do Estado do Gurguéia.
Inicialmente falou o presidente do TCE, referindo o importante papel que Jesualdo teve na instituição, como conselheiro e principalmente como presidente, quando dotou a casa de uma estrutura física e administrativa da mais modernas, inclusive a portentosa sede onde hoje funciona.
Falou em seguida o acadêmico Herculano Moraes, quando fez uma minuciosa análise da obra, ressaltando sua importância histórica, social e política.
Por último, falou o autor, Jesualdo Cavalcanti, em discurso que pode ser lido na íntegra:
Senhoras e Senhores:
Começo por cumprir uma obrigação indelegável: manifestar minha gratidão a todos os presentes. Certamente muitos deixaram de lado outros compromissos para prestigiar esta solenidade, deferência que me alegra, honra e desvanece.
Sou imensamente grato também ao conselheiro Anfrísio Castelo Branco, presidente desta Corte, e ao acadêmico Manfredi Mendes de Cerqueira, presidente da Academia Piauiense de Letras, pelo patrocínio desta solenidade, gratidão que estendo aos seus colaboradores, com o maior prazer.
Gratificado por tão honrosas presenças, espontaneamente assumo um compromisso: prometo poupá-los das costumeiras e por vezes tediosas divagações, quase sempre dispensáveis, em momentos como este. Sobretudo após a bela fala do acadêmico Herculano Moraes, que dissecou o conteúdo da obra melhor do que poderia fazer o autor. Por isso e por tudo mais, sou-lhe, além de ardoroso admirador, também imensamente grato.
Ouso acreditar que num ponto todos estamos de acordo: se o Piauí, como registra freqüentemente a imprensa, é um ilustre desconhecido da Nação (não faz muito uma editora do sul chegou ao absurdo de excluí-lo do mapa do país), pior é se-lo dos próprios piauienses.
E que dizer de sua parte mais ao sul – os remotos sertões de Parnaguá, aquela “espécie de nação gurguéia” identificada pelo professor Fonseca Neto? Eles guardam, é bom esclarecer, a verdadeira certidão de nascimento do Piauí – expressa nas cartas de concessão das primeiras terras em nosso território, ainda em 1676. No entanto, sua população, apesar dessa primazia, pouco sabe sobre o Piauí, pois pouco lê, muito menos vê, ouve ou escreve a respeito.
Mais grave é o fato também de o Piauí, por sua vez, pouco se inteirar das coisas de lá. É sintomático que 191 anos separem a primeira da segunda visita de um governante piauiense àquelas paragens. Com efeito, depois da viagem pioneira do governador João Pereira Caldas para instalar a vila de Parnaguá, em 1762, só em 1953 fomos brindados com a segunda. Fê-la o governador Pedro de Almendra Freitas, que eu, menino de calças curtas, entre curioso e assustado, vi passeando pelas ruas de minha Corrente.
Como justificar tão espessa cortina de isolamento, sabendo-se que, nos tempos em que pobre não se tornava barão, a opulência dos currais de gado lá produziu 40% da nobiliarquia nascida no Piauí, inclusive o Marquês de Paranaguá, tido e havido por muitos historiadores como o maior piauiense de todas as eras?
Ouso acreditar, ainda, que noutro ponto estamos também de acordo: o Piauí, ao longo dos anos e dos séculos, a despeito de todas as suas reconhecidas potencialidades e do empenho de suas lideranças, continua exibindo os piores indicadores sociais e econômicos entre todas as unidades federativas do país. Saímos da pecuária extensiva, ligamos Santa Filomena ao litoral através da navegação a vapor, enveredamos pelo extrativismo vegetal com a borracha de maniçoba, a cera de carnaúba e o babaçu, passamos pelos incentivos fiscais capitaneados pela Sudene e iniciamos a exploração agrícola dos cerrados. Contudo, a verdade, nua e crua, é que continuamos desafiando todas as políticas voltadas para a redução das desigualdades regionais e intrarregionais.
Que há com o Piauí? Ou melhor: Que fazer com o Piauí?
– Fechar os olhos e os ouvidos à dura realidade ou buscar uma saída ousada, definitiva, redentora?
Pois bem, alguns piauienses, entre os quais me incluo, inconformados mas não omissos ante tal estado de coisas, propõem uma saída: duplicar a receita e dividir a despesa mediante a transformação do território piauiense em dois Estados. Meta: gerar recursos para investir nos setores estratégicos, de modo a aproveitar racionalmente suas riquezas naturais. Espelham-se, com justa razão, nos bons resultados obtidos por Goiás e Mato Grosso com a criação dos Estados do Tocantins e Mato Grosso do Sul.
Como a história foi, é e sempre será a insubstituível mestra da vida, convém mirar os seus ensinamentos: dos vinte Estados existentes em 1927, Piauí, Goiás e Mato Grosso ocupavam rigorosamente a 20ª, 19ª e 18ª posições, no tocante a receitas. Passados 80 anos, o Piauí continua ocupando placidamente a última posição, entre eles. Enquanto isso, Goiás/Tocantins pularam para a 7ª posição e Mato Grosso/Mato Grosso do Sul, para a 9ª. Se essa edificante obra de engenharia política deu certo lá, por que não haveria de dar certo aqui, eis a pergunta que não pode calar.
Verdade seja dita: queiramos ou não, a idéia de redivisão territorial do Brasil compõe a agenda política de nossos dias. Dispondo sobre a matéria, tramitam projetos no Congresso Nacional propondo a realização de plebiscitos para criação de duas dezenas de Estados. Dentre eles, o do Gurguéia, que é objeto de dois projetos – um do deputado Paes Landim, com substitutivo do deputado Júlio César, já aprovado por três comissões técnicas da Câmara dos Deputados, e o outro, do senador João Vicente Claudino, com parecer favorável do relator na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal.
Sabemos que a decisão preliminar sobre esse magno assunto, tão importante para nosso destino quanto o foi a mudança da capital de Oeiras para Teresina, em 1852, é tarefa constitucionalmente afeta ao eleitorado do Piauí, a ser ouvido em plebiscito, num salutar exercício de democracia direta. O Gurguéia, como sabemos, abriga apenas 20% desse eleitorado. Fica claro, portanto, que só haverá emancipação do Gurguéia se o Piauí quiser e, por certo, só haverá de querê-la, se se convencer de seus reais benefícios para todos.
No contexto atual, o pior que nos pode acontecer não é deixarmos de criar o Estado do Gurguéia, perdendo, mais uma vez, o bonde da história. Pior é serem criados outros Estados, que não o do Gurguéia, pois assim seríamos chamados a pagar a conta, sem qualquer compensação. Daí a necessidade de o tema ser pesquisado, estudado, analisado e discutido pela sociedade piauiense, nos mínimos detalhes.
Senhoras e Senhores:
O Dicionário Enciclopédico do Gurguéia, ao resgatar a memória histórica daqueles sertões e retratar os vários aspectos de sua realidade, fornece elementos, dados estatísticos e informações, tão verazes quanto isentos, que podem subsidiar e qualificar o debate.
Assim contribuindo, só me resta esperar que a decisão popular que vier a ser tomada, qualquer que ela seja, a favor ou contra o projeto, expresse um ato de cidadania socialmente amadurecido, democraticamente adotado, politicamente correto e economicamente redentor, banido qualquer passionalismo, preconceito ou ressentimento.
Afinal, com a seriedade que o assunto exige, estamos tratando é do futuro do Piauí e das novas gerações.
Muito obrigado.